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Reportagem publicada no jornal 'O Estado de São Paulo'

Chong Jin Jeon: sócio da Asia Motors do Brasil
Empresário conta sua versão do desfalque envolvendo a tentativa da Ásia Motors de construir uma fábrica na Bahia
Chong Jin Jeon, 44 anos, entra na sala, pede licença, ajoelha-se e levanta os braços. Explica que é um ritual em homenagem à mãe, que morreu em 2002. “Prometi que ao menos as amigas dela saberão que sou inocente, pois ela morreu sem saber isso.” Preso na sede da Polícia Federal há 21 meses, aguarda para ser extraditado.
Pela primeira vez, em dez anos, ele conta sua versão sobre desfalque envolvendo a tentativa da Ásia Motors de ter uma fábrica na Bahia. A entrevista, acompanhada por dois agentes da PF, durou uma hora e meia. Mantendo o bom humor, que amigos dizem ser sua características, por várias vezes conteve as lágrimas. A seguir, trechos da entrevista.
Quando o sr. chegou ao País?
Eu tinha 12 anos, vim com meus pais e quatro irmãos.Quando eu tinha 20 anos, a família foi para os EUA, mas eu me case e fiquei. Minha mulher também é coreana, mas naturalizou-se brasileira. Temos três filhas nascidas aqui.
Como o sr. se tornou empresário?
Minha família trabalhava no ramo de confecção. Comecei a vender roupas e cheguei a ter 15 lojas, que ficaram com meu cunhado, quando eu fui para o ramo de carros, primeiro como importador. A Ásia Motors me procurou para representar a marca. Fui apresentado ao Washington Lopes e ao Roberto Uchoa, que já eram importadores, e fizemos uma sociedade. Eu cuidava do marketing.
A importação deu certo?
As vendas estavam muito boas, mas ficou difícil quando a alíquota de importação foi para 70%. Então, o governo lançou o regime automotivo, que dava incentivos a fabricantes.
Em 1995, a Asia mandou 38 empregados para estudar a fábrica. Dois anos depois, assinamos a joint venture. Ficamos com 49% das ações da Asia Motors do Brasil e a Asia da Coréia ficou com 51%.
O que aconteceu depois?
A Asia entrou em concordata na Coréia. Ainda assim, executivos e ministros coreanos garantiram que o projeto da fábrica continuaria. Em agosto de 1997, realizamos a solenidade da pedra fundamental, com presenças do presidente Fernando Henrique, do governador da Bahia, embaixadores e executivos da Coréia.
O grupo importou veículos com imposto reduzido e não construiu a fábrica. O sr. é acusado de um desfalque de US$ 200 milhões referente ao aumento de capital na Asia brasileira. Foi o que ocorreu?
Essa é uma história que a Hyundai inventou. Em fevereiro de 98, na reunião que aprovou o aumento de capital, seis pessoas assinaram a ata: quatro diretores coreanos, eu e o Washington. Se houve fraude, por que só eu fui acusado?
Como o sr. foi preso?
Minha família estava na Coréia e fui visitá-la. Diretores da Hyundai me chamaram para uma reunião em novembro de 1998. Quando saí do elevador fui detido. Primeiro, me acusaram de roubar US$ 200 milhões do balancete. Como não conseguiram sustentar a acusação, vieram com a história de fraude do aumento de capital. Também disseram que eu induzi os quatro diretores a assinarem a ata. Fui condenado a sete anos de prisão (pena depois ampliada para dez anos).
Por que o sr. diz que a acusação é uma invenção?
A Hyundai não tinha condição de comprar o grupo Kia. No leilão, ofereceram, creio, US$ 6 bilhões, não lembro do valor.
No leilão que foi anulado, a Ford ofereceu US$ 5,7 bilhões. Dois dias depois de eu ser preso, o governo deu um perdão de US$ 230 milhões para a Hyundai.
Quanto tempo ficou preso?
Na Coréia, 19 meses. Quando consegui o habeas-corpus, ainda fiquei um ano e meio tentando negociar com a Hyundai, Paguei US$ 100 mil de fiança à Justiça e mais US$ 10 milhões para a Hyundai que dizia que faria um acordo. Minha família conseguiu US$ 3 milhões e o Washington, US$ 7 milhões. A empresa continuou pedindo dinheiro, mas eu não tinha mais.
Em 2001 fugi para o Brasil. Fui preso em julho de 2006.
Como vê sua extradição?
Estou há 32 anos no Brasil, tenho filhas e mulher brasileiras, eu nunca tive ficha criminal aqui, sempre fui empreendedor, não há motivo para ser extraditado.
Por que a Coréia o quer lá?
Porque poderão abafar a verdade. Se fiz alguma coisa errada, os quatro diretores também fizeram. Qual a prova do crime para eu passar esses dez anos de agonia? Minhas filhas perderam toda a adolescência delas vendo eu ser chamado de ladrão. Posso perder tudo na vida, mas não sou ladrão.
O que acha que vai ocorrer quando voltar a Coréia?
Para me matarem na cadeia é a coisa mais fácil do mundo. Se eu for lá, vou morrer porque sei demais.
Se ficar, o sr. acha que atrapalha planos da Hyundai?
Sim, porque eu sempre vou falar que não sou ladrão. O aumento de capital nem houve. Como eles têm 51% das ações, terão de me chamar. Meu desejo é que me julguem de novo, pois no outro julgamento não tive chance de defesa.
Como é seu dia na prisão?
Rezo todos os dias, faço esporte, meditação, leio, falo bastante com meus colegas.
Dou aulas de meditação e de ioga.
O sr. acha que ainda tem chances de ficar aqui?
Quero mostrar todos os documentos que tenho. Aí, sim, poderão me julgar, pois até agora não tive chance.
Peço, por favor, que olhem, pois o julgamento de extradição não analisa o mérito. Me deixem voltar para perto da minha família.
Quem é: Chong Jin Jeon
° É sócio da falida Asia Motors do Brasil e está preso no Brasil, acusado por fraude
° A extradição foi autorizada pelo STJ, mas ele pediu direito de ficar como refugiado, pois alega que será morto na Coréia.
Fonte: O Estado de São Paulo - 06 de Abril de 2008
criado por joonzon
15:42:19